PINTOU UM CLIMA
A internet é um fenômeno de comunicação de massas.
As redes sociais deram destaque para quem, de outra forma, não teria como expor as suas ideias.
Mas tem um problema. Apesar dos mais de 30 anos de existência em nosso país, a internet é ainda uma novidade e pouca gente parece perceber o alcance e o estrago que as nossas postagens podem fazer.
Ideias tem consequências, ainda mais quando as elas estão vendadas pelas paixões e pela histeria.
A fala do Bolsonaro sobre "pintar um clima" ou o vídeo de Lula quase errando um beijo em uma criança são exemplos disso.
Nas mãos de uma turba irracional e tomada pelos sentimentos mais desordenados, qualquer um deles (ou ambos) vira pedófilo, assassino, traficante, canibal. Basta pegar uma fala/cena isolada e criar uma narrativa.
Os militantes e os coordenadores de campanha sabem disso. Eles alimentam o fogo com essa gasolina.
Postei o vídeo do beijo despretensioso de Lula em uma criança para provocar. Escrevi "o sujo falando do mal lavado" para ver a reação. No meio da polêmica do "pintou um clima", e se um gesto trivial fosse usado com o mesmo objetivo pelo grupo oposto?
Os bolsonaristas adoraram e replicaram; os lulistas ficaram indignados. Como eu esperava, tudo se resume não ao gesto (ou fala), mas ao candidato.
Quem defende um político, tudo que ele fizer ou disser tem um "senão", uma desculpa, um "foi tirado do contexto", "é montagem", "mas o 'fulano' também fez isso e aquilo".
Se é algo do opositor, aí dane-se o contexto e o bom senso. Ganha quem jogar a maior pedra primeiro.
Apoiar um político sem reservas, sem lhe exigir que seja fiel às promessas de campanha, sem que ele seja visto como um servidor público eleito (e não uma divindade descida do Olimpo), é caminhar alegremente para o autoritarismo.
Quando isso acontecer, não poderemos postar mais nada, não poderemos falar mais nada, não poderemos pensar mais nada. Os tribunais já estão nos dando um aperitivo de onde isso pode parar.
Um pouco de inteligência e prudência não faz mal a ninguém.

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